quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O epitáfio de um sapato velho

As pessoas dizem que sentem quando vão morrer; não sei se com sapatos funciona da mesma forma. Já faz alguns dias que tenho percebido isso: o fim. Nem tanto pelos buracos no solado ou as rachaduras no couro ou o cadarço esfarrapado, mas meu dono tem se afastado de mim. Do mais querido do armário fui trocado por um mocassim zero quilometro, desses que chegam a cegar de tanto brilho.
Dessa forma, antes de ser abandonado num canto de parede sujo e frio e começar a ser consumido por fungos impiedosos, preciso que saibam de mim, que fui um sapato espetacular, feito com um couro italiano finíssimo, o principal motivo de uma vida longa e saudável. Tenho primos chineses que não vivem nem dois meses. Garanti conforto e maciez aos pés de meu dono; entretanto, nunca fui muito recompensado por isso, pelo contrário, literalmente andei por caminhos tortuosos: lama, calçadas escaldantes e toda sorte de sujeiras que prefiro nem citar e, meu Deus! Me digam quem inventou o tal do chiclete? Os humanos têm câncer, nós temos chicletes, a maior praga que foi inventada. Também tenho trauma mortal de dias chuvosos e de fumantes. Meu dono é um desses e me usa para apagar pontas de cigarros. Poderia odiá-lo por isso, mas quer saber? Minha vida foi chocante, dessas que dariam facilmente um romance ou um conto, por isso o quero tanto. Ah! Tenho um irmão gêmeo. Ele é carrancudo, de poucas palavras. Ainda não absorveu a dura realidade. Está inconformado com a vida, não suporta que tenha sido largado e já anda arquitetando planos para tornar um inferno a vida do novo mocassim. Eu não, estou em paz, tranquilo. E, antes que a podridão me tome, que meu epitáfio seja: Amou cada passo de sua vida.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Eu volto. Um dia eu volto.


segunda-feira, 8 de junho de 2009

Diálogo

-Você me ama?
-Essa batata tá horrível!
-Você me ama?
-Como?
-Você me ama?
-Amo
-Quanto?
-Desse tantão, como faz um menino, e tu?
-Eu o quê?
-Tu me ama?
-Amo
-Quanto?
-Desse tantinho, mas por que ninguém pode saber?
-Por que não.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Jimi

Para
Marcelo Santos
Carlos Alesander e
Bruno Baungartner,
que me matam
sempre que podem.
"Oh! Jimi
O tempo passou
E a gente não viu
Oh! Jimi
Aonde você foi agora?
Oh! Jimi
Dez anos
E o que a gente construiu?
Oh!
A banda, o futebol
oh! Jimi
O tempo passou e a gente sorriu
Oh! Jimi
Você não está aqui agora
Pra onde você foi, não sei, faz frio?
Tem sexo ou é vazio?
Da correnteza ao rio?
Ou uma luz?"
Duca Leindecker
Cidadão Quem

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A Boca da Escuridão



Tenho evitado não me contaminar. Tenho evitado ouvir, atender portas e receber telefonemas. Já não leio mais jornais.
Me envolvi demais.
Dores demais.
Ressentimentos demais.
Barbitúricos demais.
Às vezes faço viagens breves pelo meu corpo, braços, pernas, estômago, por dentro. Conheço
cada artéria,
cada vazo,
cada célula.
Mas tem uma janela que vejo no alto. Chamei-a de A Boca da Escuridão. Vagam através dela tudo aquilo que sou eu e não conheço, corre por elas todas as
palavras que evito,
feridas que evito,
lembranças que evito.
As pessoas sempre me empurram para essa janela, e mesmo que eu me rasgue, me esperneie, me dilacere, ainda assim me empurram. Mas estou
fraco demais,
à flor da pele demais,
ausente demais.
Não suportaria abrí-la. Então os evito todos, mesmo os mais indispensáveis. Para não me contaminar não atendo portas nem telefonemas.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Dos deuses


Quando se ama tanto, mas tanto alguém, esse alguém se endeusa, se torna algo sublime, imaculado.

E só me ocorreu agora: quanto mais nos aproximamos dos nossos deuses mais humanos esses se tornam, mais crus e cruéis se mostram, capazes de atos tão impiedosos que nem nós humanos-mortais seríamos capazes de cometer. Aí o brilho apaga. São tantas coisas cuspidas na cara, tantos pecados cometidos, tanta frieza gratuita.

Bom mesmo é ficar o mais distante possível. Olhar sempre pro alto quando lembrar deles, - ando fazendo isso demais - não passar mais que uma tarde ao seu lado, ou alguns minutos no MSN, mas nunca dias inteiros, nem semanas inteiras. E nunca, absolutamente nunca, dormir com eles.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Prozac e Ressentimentos